
Porquê nuclear?
Já produzimos muita eletricidade a partir do sol, do vento e da água. O que poderia a nuclear acrescentar? E o que teríamos de resolver para a usar?
Como funciona
Como é que uma pastilha tão pequena produz tanta energia?
A diferença está nos átomos de urânio. Quando se dividem, libertam muito mais energia do que uma reação de combustão, como a queima de carvão.
O processo chama-se fissão e, numa central, o calor libertado é usado para produzir vapor. Esse vapor faz girar uma turbina ligada a um gerador, produzindo eletricidade, tal como acontece noutras centrais térmicas.


Segundo o Departamento de Energia dos EUA, uma pastilha pode libertar aproximadamente tanta energia como 1000 kg de carvão. Isto ajuda a perceber porque é preciso tão pouco combustível. A equivalência varia com o combustível e com o reator.
Na prática, há menos combustível para transportar e é possível manter reservas para longos períodos. Mas o urânio tem de ser extraído e preparado, a central tem de ser construída e o combustível usado tem de ser gerido.
Usar pouco combustível é uma vantagem. Não elimina os impactos da mineração nem a responsabilidade pelos resíduos.
Se temos tanto sol e vento, para que precisamos de nuclear?
Ter bons recursos renováveis é uma vantagem para Portugal. A questão é como garantir eletricidade também nas horas em que produzem menos.
As barragens, as baterias, as ligações a outros países e a possibilidade de ajustar alguns consumos já ajudam a equilibrar a rede, mas cada uma destas soluções tem custos e limites. Além disso, um bom resultado no total do ano não nos diz o que acontece numa noite com pouco vento ou num período de seca.
O balanço elétrico português em 2025
Parte do consumo anual de eletricidade, segundo a REN.
- Produção renovável
- 68%
- Produção não renovável
- 15%
- Saldo importador
- 17%
A nuclear pode acrescentar produção de baixo carbono sem depender do sol ou do vento. Também tem paragens para manutenção e reabastecimento, e pode ter avarias. Por isso, precisa de ser planeada em conjunto com o resto do sistema.
É isso que defendemos que se estude: perceber se acrescentar esta opção melhora o resultado para Portugal. Teria de fazer sentido no custo, nas emissões e na segurança do abastecimento, aproveitando as renováveis que já temos.
A nuclear pode complementar as renováveis. Saber se compensa em Portugal exige comparar cenários para todas as horas do ano.
Ambiente e recursos
Uma central precisa de muito terreno e de muita água?
Consegue produzir muita eletricidade numa área relativamente pequena. Ainda assim, o terreno da central é só uma parte da conta.
Também contam a extração de urânio e as restantes instalações do combustível. O mesmo cuidado vale para as renováveis: painéis num telhado já existente ocupam território de forma diferente de um parque solar. Entre turbinas eólicas pode continuar a haver agricultura.
Na construção, uma central nuclear usa muito betão e aço. A Agência Internacional de Energia aponta para necessidades relativamente baixas de alguns minerais por unidade de potência instalada, mas isso não é o mesmo que somar todos os materiais usados ao longo da vida da central.
Tal como noutras centrais térmicas, é preciso água para arrefecimento, embora nem toda a água captada seja consumida: parte pode regressar ao rio ou ao mar. O impacto depende do local e do sistema escolhido, pelo que, em Portugal, a seca e as temperaturas elevadas teriam de pesar na decisão.
Uma comparação útil considera a mesma eletricidade produzida e inclui construção, combustível, rede e fim de vida de cada opção.
E se contarmos a construção e as minas, continua a emitir pouco CO₂?
Sim. Mesmo incluindo essas etapas, as emissões por unidade de eletricidade ficam muito abaixo das do gás e do carvão.
O reator não queima carvão ou gás para gerar calor. Mas a construção, a extração e preparação do urânio e o desmantelamento provocam emissões. É por isso que comparamos o ciclo de vida completo.
Emissões para a mesma eletricidade
Gramas de CO₂ equivalente por kWh, incluindo construção, combustível e desmantelamento.
Escala: 0–900 g CO₂e/kWh
- Eólica terrestre11 g CO₂e/kWh
- Nuclear12 g CO₂e/kWh
- Hídrica24 g CO₂e/kWh
- Solar fotovoltaica48 g CO₂e/kWh
- Gás natural490 g CO₂e/kWh
- Carvão820 g CO₂e/kWh
Os valores do gráfico vêm de uma síntese do IPCC publicada em 2014 e são medianas de estudos internacionais, não medições de centrais em Portugal. Mais do que a pequena diferença entre fontes de baixo carbono, interessa perceber a distância que separa eólica, hídrica, solar e nuclear do gás e do carvão.
Os resultados variam entre projetos e estudos, sobretudo na hídrica. Uma diferença de poucos gramas não chega para escolher a melhor opção para um país.
Segurança, resíduos e custos
Estamos expostos a radiação todos os dias. Quando é que faz mal?
Pode causar danos, mas para perceber o risco é preciso conhecer a dose recebida, o tempo e a forma de exposição.
A radiação ionizante existe naturalmente nas rochas, no solo e no espaço. Num voo recebemos mais radiação cósmica porque temos menos atmosfera por cima. Alguns alimentos também contêm pequenas quantidades de elementos radioativos.
O facto de ser natural não a torna inofensiva. Doses elevadas podem provocar lesões e a exposição pode aumentar o risco de cancro. É por isso que se mede a exposição de trabalhadores e populações e se aplicam limites e medidas de proteção.
Em Portugal, a APA mantém a RADNET, uma rede que acompanha continuamente os níveis de radiação no ambiente. É uma forma concreta de detetar alterações e apoiar a resposta das autoridades.
Uma dose recebida de uma só vez e a mesma dose distribuída por muito tempo não são situações equivalentes. A presença de radiação, por si só, não permite avaliar o risco.
Depois de Chernobyl e Fukushima, o que nos faz confiar na segurança?
A confiança tem de vir do projeto, das pessoas e da fiscalização. Acidentes graves aconteceram e uma central tem de estar preparada para falhas.
Em Chernobyl, em 1986, falhas de projeto, decisões operacionais e uma cultura de segurança deficiente contribuíram para a destruição do reator e uma grande libertação de material radioativo. Houve mortes por exposição aguda e consequências de saúde a longo prazo.
Em Fukushima, em 2011, o sismo e o tsunami levaram à perda de eletricidade e de arrefecimento. Houve fusão de núcleos e explosões de hidrogénio. A UNSCEAR não documentou efeitos adversos na saúde dos residentes diretamente atribuíveis à radiação do acidente. A evacuação e a deslocação das populações tiveram, ainda assim, consequências humanas graves.

A resposta passa por várias proteções que se complementam: barreiras físicas para conter os materiais radioativos, sistemas para arrefecer o combustível, formação, fiscalização independente e planos de emergência. Nenhuma destas medidas pode servir de desculpa para desvalorizar as restantes.
Uma central também não explode como uma bomba atómica, porque o combustível e as condições são diferentes. Isso não impede outros acidentes, como explosões de vapor ou de hidrogénio.
Não existe risco zero. O que se exige é reduzir a probabilidade e as consequências de acidentes e conseguir demonstrá-lo à entidade reguladora.
Os resíduos ficam perigosos durante milhares de anos. Onde é que os pomos?
Parte dos resíduos precisa de ficar isolada durante muito tempo. O combustível usado começa por arrefecer em piscinas e pode depois passar para armazenamento seco.
O combustível usado começa por ficar numa piscina, onde a água retira calor e protege contra a radiação, e pode passar para contentores de aço e betão quando já arrefeceu o suficiente. É esse armazenamento intermédio que se vê nas duas fotografias.


Para a deposição definitiva, a solução de referência é um depósito geológico profundo: barreiras construídas em conjunto com rocha estável para isolar os materiais. É o caminho seguido pelo ONKALO, na Finlândia. A licença de operação foi concedida em 22 de outubro de 2026. Segundo a Posiva, o início da deposição depende ainda de testes, inspeções e aprovação da STUK.
A radioatividade diminui com o tempo, mas a ritmos diferentes consoante os materiais. Por isso, gerir estes resíduos exige financiamento, instituições que durem e envolvimento das comunidades. A solução técnica é uma parte do trabalho; concretizá-la é uma responsabilidade de cada país.
Um contentor à superfície e um depósito geológico cumprem funções diferentes. Armazenar agora não dispensa preparar a solução de longo prazo.
E em Portugal: quanto custaria e quanto tempo demoraria?
O custo depende muito do projeto e de como é financiado. E, para um país que está a começar, a preparação leva anos.
O investimento começa muito antes de a central vender eletricidade e, se a obra se atrasa, os juros continuam a acumular-se, como mostra o exemplo abaixo. Usar um projeto já construído noutro local, contar com equipas experientes e ter financiamento estável pode ajudar a controlar os custos. Em contrapartida, alterar o projeto durante a obra pode torná-la muito mais cara.
Quanto custa esperar?
Imagina que pedes 100 € emprestados e não fazes pagamentos durante a obra. Todos os anos, os juros somam-se à dívida.
Dívida ao fim de 10 anos
Dívida ao fim de 10 anos
Portugal já tem uma autoridade reguladora para a proteção radiológica e a segurança nuclear: a APA. Um programa de centrais elétricas exigiria reforçar essa capacidade, formar pessoas e preparar fornecedores, financiamento e gestão de resíduos.
Com base na experiência internacional, a AIEA aponta para cerca de 10 a 15 anos entre a consideração inicial da opção e a entrada em funcionamento da primeira central de um país. É uma referência, não um prazo garantido para Portugal.
É por isso que defendemos estudar a opção com seriedade. Teríamos de comparar o custo do sistema inteiro, as emissões, o território, a dependência externa e o tempo necessário. Só com essa análise seria possível perceber se a nuclear acrescenta valor ao país.
Não há um preço universal para uma central nem uma resposta antecipada sobre a opção mais barata para Portugal.
Ficou alguma dúvida?
Diz-nos o que gostavas de perceber melhor ou sugere uma pergunta para acrescentarmos aqui.
Pergunta-nosQueres aprofundar mais a análise?
O Diogo Valada criou um site sobre a Energia Nuclear em Portugal que aprofunda a tecnologia, o sistema elétrico e as decisões que um programa nuclear português implicaria.
Ler a análise mais detalhada ↗Fontes
- DOE · Fuel density (2024)
- JRC · Technical assessment of nuclear energy (2021)
- REN · Balanço elétrico / Electricity balance (2025)
- IEA · Nuclear Power and Secure Energy Transitions (2022)
- IEA · The Role of Critical Minerals (2021)
- EIA · Cooling systems that reuse water (2014)
- IPCC · AR5, Annex III, Table A.III.2 (2014)
- ARPANSA · Ionising radiation: questions and answers
- EPA · Natural Radioactivity in Food
- APA · RADNET
- IAEA · Chernobyl, INSAG-7 (1992)
- UNSCEAR · Fukushima, report 2020/2021
- CNSC · Design of Reactor Facilities, §6.1
- IAEA · Lifecycle of Nuclear Fuel (2019)
- NRC · Storage of Spent Nuclear Fuel
- Posiva · ONKALO: operating licence (22 October 2026)
- Posiva · Release barriers
- IAEA · Milestones, Rev. 2 (2024), pp. 2, 6–7
- APA · Missão IRRS / IRRS mission (2022)
Créditos das fotografias
- Advanced Test Reactor · fundo / background · Argonne National Laboratory, 2009CC BY-SA 2.0
- Fuel pellet / Pastilha · NRC, 2010CC BY 2.0
- 1000 kg · mina Anna / Anna mine · Kamil Czaiński, 2025CC BY-SA 4.0
- Vogtle 3 · NRC, 2018CC BY 2.0
- San Onofre · NRC / DOEU.S. government
- Dry storage / Armazenamento seco · Sandia National Laboratories / NRC, 2014CC BY 2.0
Fotografias redimensionadas e convertidas para WebP. O fundo adapta o enquadramento ao ecrã. As comparações usam molduras iguais de 3:2. As fotografias preenchem as molduras arredondadas, com recortes que preservam o assunto. Cada derivado fotográfico mantém a licença original.
